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Nem toda escolha precisa ser para ontem: o furo na orelha da minha filha

há 1 dia
3 min de leitura

Esses dias a Yasmin furou a orelha pela primeira vez. E foi escolha dela.


Ela me pedia isso há muito tempo, mas dessa vez o pedido veio diferente, com uma convicção que me fez entender que tinha chegado a hora. Ela queria fazer 5 anos já com o furo na orelha, e pediu isso de presente.


Quero contar essa história porque ela começou lá atrás, antes mesmo de a Yasmin nascer.


Uma escolha que eu já levei para a maternidade


Eu fui para o hospital decidida a não furar a orelha dela na maternidade. Naquela época eu estava fazendo o Master em Neuroarquitetura, com foco nos recém-nascidos, e estudava muito a neurociência e o comportamento do bebê. A barriga é o primeiro ambiente dele, e o parto já é um momento de muito estímulo, que pode ser bem assustador para quem acabou de chegar. Não existe nada comprovado sobre isso, mas eu não queria somar mais um estímulo rápido e confuso para ela logo nas primeiras horas de vida. Foi uma escolha consciente, e eu quis respeitar isso.


E aí a Yasmin chegou do jeito dela. Foi um parto de emergência, ela estava perdendo os batimentos, e por causa da minha diabetes gestacional e da insulina em dose alta ela precisou ser acompanhada de perto. Nos primeiros dias, recebeu picadas a cada vinte, trinta minutos. Olhando para ela ali, a decisão que eu já tinha ficou ainda mais clara para mim: ela não precisava de mais uma intervenção que podia esperar.


Cinco anos depois, quem escolheu foi ela


Quem deu esse presente foram os tios amados dela, que fizeram questão de estar junto. Ela mesma escolheu o brinco. A profissional que cuidou dela foi um amor: avisou cada passo antes de fazer, prendeu o cabelo, passou a pomada que "faz a orelha dormir", marcou com a caneta, perguntou se ela estava sentindo alguma coisa. Nada foi feito de surpresa, nada foi apressado. E no final ela ainda ganhou um certificado de coragem.


Eu fiquei ali olhando e pensando que aquele momento só existiu porque, lá atrás, eu escolhi esperar.


Na maternidade, tudo acontece muito rápido, no meio de protocolos, e o bebê não tem como participar. Aos cinco anos, a Yasmin escolheu, sentiu, participou de tudo e vai lembrar. O que começou como um cuidado para não ser invasiva com ela virou a realização de um sonho dela e uma memória de coragem que ela vai carregar.


Sem julgamento nenhum


Furar a orelha na maternidade é muito comum, e está tudo bem. Muitas famílias fazem com carinho e segurança, e cada uma tem os seus motivos. Esse texto não tem a ver com certo ou errado. Eu só quero dividir o que essa espera me ensinou.


O que essa espera me ensinou


A maternidade chega com uma lista enorme de coisas que parecem urgentes: o enxoval completo, o quarto pronto e decorado antes de o bebê nascer, o brinco na maternidade, a rotina perfeita desde a primeira semana. Algumas coisas precisam mesmo de atenção agora, e outras só parecem urgentes porque todo mundo faz assim.


Eu vejo isso muito no meu trabalho com quartos de criança. Muitas famílias sentem que precisam decidir tudo antes do nascimento, como se o quarto tivesse que ficar pronto para sempre. E ele não precisa. O quarto pode começar com o essencial e ir crescendo junto com a criança, a partir do que ela vai mostrando que precisa. Quando a gente espera conhecer o filho que chegou, as escolhas ficam muito mais certeiras, e muito mais dele.


Eu acredito que a criança também ensina o tempo dela para a gente. É só a gente abrir espaço para escutar.


Quando eu fico em dúvida se alguma coisa pode esperar, eu me pergunto se aquilo precisa mesmo ser agora ou se só parece urgente porque é o costume, o que se perde e o que se ganha esperando, e se um dia aquela escolha poderia ser do meu próprio filho. Nem sempre a resposta é esperar, mas só de perguntar a escolha deixa de ser automática.


Para terminar


Obrigada aos tios da Yasmin, que transformaram um furo na orelha num dia de coragem, e obrigada a ela, que me lembrou que o tempo certo, às vezes, é o tempo da criança.


Tem escolhas que não precisam ser para ontem, e algumas ficam ainda mais bonitas quando chegam no tempo certo.


E você, tem alguma escolha que deixou para depois e virou uma memória bonita? Me conta nos comentários. 🤍


Com carinho,


Thais.

 
 
 

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Thais Costa | Neuroarquitetura

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